A Iniciativa Urukum busca promover ações que valorizem o etnoconhecimento de povos tradicionais ao mesmo tempo em que contempla a força de suas cosmovisões fazendo com que haja um retorno direto aos envolvidos. E, assim, seguimos nossos caminhos entre a arte, a ciência, a literatura e a visão mítica de nossa participação nesse mundo.

PROJETOS

RAU XARAHU

Sobre o desenvolvimento do livro

Foram ao todo cinco grandes caminhadas identificando as plantas, fotografando, anotando as palavras e percebendo o quanto da cosmovisão Shanenawa influencia o contato com a natureza, fazendo com que ações de cuidado e preservação se manifestem naturalmente como parte de sua cultura. A cada dia cerca de 30 plantas eram catalogadas. À tarde, nos sentávamos  em frente ao computador para descarregar as fotos, passar a limpo todas as anotações e confirmar se as fotos tiradas correspondiam às anotações feitas, nesse processo revíamos todo o material coletado durante o dia. Uma das dificuldades era transcrever o nome correto da planta na língua Shanenawa. Como, por exemplo, a planta utilizada para dor de dente, chamada pelos Shanenawa de Bêsha Nixpu, enquanto pelos Huni Kuin é chamada de Vêsha Nixpu; ou ainda, a planta utilizada para os olhos Nui Tasaya em Shanenawa, e Nui Rimi Tasaya em Huni Kuin. Alguns nomes são muito próximos, outros, entretanto, distanciam-se bastante como a planta utilizada para dormir chamada pelos Shanenawa de Kuma Usha, e pelos Huni Kuin de Usharau, fato que vem confirmar a necessidade desse registro, uma vez que a língua Shanenawa, assim como outras línguas indígenas corre risco de extinção.

O livro cumpre duas perspectivas, uma interna que fala diretamente à comunidade, e outra externa, na medida em que se alia ao desejo da aldeia de abrir seu espaço para receber pessoas interessadas em conhecer a cultura Shanenawa. Com isso, o valor intangível dos saberes ancestrais, essencial para a preservação da diversidade cultural, torna-se mais perceptível para não indígenas. Esse valor intangível, por meio do livro de plantas medicinais permite abordar práticas espirituais, métodos de cura, rituais de passagem, histórias orais e conhecimentos sobre a natureza e o ambiente.

AÇÕES DE VISIBILIDADE

NUKU VESU - nossa face

Gravado na aldeia Kene Mera, do povo Shanenawa, no Acre, com a participação dos pajés Matxiani, Rua Busê, Mukani, Timá, Dua Busê e Siã.

Este é um projeto não só sobre os povos da floresta, mas essencialmente sobre nós, sobre espectros esquecidos de nossa cultura. O documentário teve por objetivo registrar os saberes ancestrais e configurá-los em um livro de plantas medicinais a fim de ampliar a visibilidade dos povos da floresta e contribuir para sua continuidade social, cultural e territorial. Cabe ressaltar que o pedido para a realização desse trabalho partiu dos próprios pajés. 100 plantas foram fotografadas para o livro bem como suas respectivas formas de utilização que podem ser feitas com aplicação de folhas, raízes e cinzas, em chás, banhos e compressas, entre outras formas. 

Foi Exibido no Acampamento Terra Livre, em Brasília, em 2021, na programação cultural do encontro e também na Cinemateca de Curitiba, no evento Amazônia passa por aqui, em 2022. 

Terra sem raízes

O livro foi lançado na Comic Con EXperience e teve parte de sua arrecadação destinada à aldeia Kene Mera, do povo Shanenawa, no Acre. Por meio das vendas do livro foram repassados o montante necessário para o registro da associação da aldeia, bem como entregues um notebook para uso da associação e um violão.
No livro acompanhamos a história de um personagem nascido em cidades de árvores, crescido em cidades de concreto e alheio às próprias origens, não por vontade própria. Pai indígena e mãe branca tentaram criá-lo como ser da floresta, mas o destino traçou novos caminhos para a criança. O nome dessa época foi esquecido, assim como as origens em verdes tons. Violência e caos, invasores e metais preciosos, territórios em disputa e silêncio dos governantes causaram a morte do pai indígena; à mãe branca restou a fuga e a distância das memórias manchadas de vermelho. Uma jornada de resgate da ancestralidade!

Nossa Face

A jornada humana não se faz isolada, ela é uma trama interconectada de experiências, simbolismos e um impulso incessante para encontrar harmonia mesmo em meio ao caos. A busca humana por compreensão, a criação de mitos e deuses e a tradução das leis universais refletem a necessidade de interpretar o mundo que nos rodeia, conectando o físico, o espiritual e o intelectual de maneiras que são únicas para nossa espécie. Assim sendo, a narrativa Shanenawa, por meio de suas práticas e cosmovisões, oferece perspectivas fundamentais, frequentemente marginalizadas ou ignoradas pelo pensamento dominante, que nos lembram da harmonia advinda do respeito, da compreensão e da coexistência equilibrada com o mundo natural. Ao preservar o ambiente e honrar as práticas tradicionais, descobrimos não apenas meios de sobrevivência, mas caminhos para uma vida significativa entre ancestralidade e contemporaneidade.

Exposição fotográfica da aldeia Kene Mera, do povo Shanenawa, no Acre, no Festival de Felicidade, Curitiba/PR, em 2022.