A Casa Urukum busca promover ações que valorizem o etnoconhecimento de povos tradicionais ao mesmo tempo em que contempla a força de suas cosmovisões fazendo com que haja um retorno direto aos envolvidos. E, assim, seguimos nossos caminhos entre a arte, a ciência, a literatura e a visão mítica de nossa participação nesse mundo.

PROJETOS

Vivência ancestralidade

Todas nós, cada uma aqui, trazemos em nosso corpo, em nossa história, marcas das mulheres que vieram antes de nós. Nossas mães, avós, bisavós, e tantas outras que talvez nem saibamos os nomes, mas que viveram, amaram, sofreram e resistiram para que hoje estivéssemos aqui. Elas nos deixaram heranças que vão além do sangue. Deixaram histórias, valores, medos e forças que moldaram quem somos. Quando falamos de ancestralidade, estamos falando de conexão. É como uma raiz que nos une à terra, às nossas origens.

Condução do grupo de vivência, abordando a importância de reconhecer e honrar a ancestralidade como fonte de força, sabedoria e conexão, incentivando mulheres a compartilharem experiências de opressão e superação. Realizado no espaço do Estúdio Flor de Lótus com mulheres de comunidades quilombolas do Paraná. Março/2025

RAU XARAHU

Sobre o desenvolvimento do livro

Foram ao todo cinco grandes caminhadas identificando as plantas, fotografando, anotando as palavras e percebendo o quanto da cosmovisão Shanenawa influencia o contato com a natureza, fazendo com que ações de cuidado e preservação se manifestem naturalmente como parte de sua cultura. A cada dia cerca de 30 plantas eram catalogadas. À tarde, nos sentávamos  em frente ao computador para descarregar as fotos, passar a limpo todas as anotações e confirmar se as fotos tiradas correspondiam às anotações feitas, nesse processo revíamos todo o material coletado durante o dia. Uma das dificuldades era transcrever o nome correto da planta na língua Shanenawa. Como, por exemplo, a planta utilizada para dor de dente, chamada pelos Shanenawa de Bêsha Nixpu, enquanto pelos Huni Kuin é chamada de Vêsha Nixpu; ou ainda, a planta utilizada para os olhos Nui Tasaya em Shanenawa, e Nui Rimi Tasaya em Huni Kuin. Alguns nomes são muito próximos, outros, entretanto, distanciam-se bastante como a planta utilizada para dormir chamada pelos Shanenawa de Kuma Usha, e pelos Huni Kuin de Usharau, fato que vem confirmar a necessidade desse registro, uma vez que a língua Shanenawa, assim como outras línguas indígenas corre risco de extinção.

O livro cumpre duas perspectivas, uma interna que fala diretamente à comunidade, e outra externa, na medida em que se alia ao desejo da aldeia de abrir seu espaço para receber pessoas interessadas em conhecer a cultura Shanenawa. Com isso, o valor intangível dos saberes ancestrais, essencial para a preservação da diversidade cultural, torna-se mais perceptível para não indígenas. Esse valor intangível, por meio do livro de plantas medicinais permite abordar práticas espirituais, métodos de cura, rituais de passagem, histórias orais e conhecimentos sobre a natureza e o ambiente.

AÇÕES DE VISIBILIDADE

NUKU VESU - nossa face

Gravado na aldeia Kene Mera, do povo Shanenawa, no Acre, com a participação dos pajés Matxiani, Rua Busê, Mukani, Timá, Dua Busê e Siã.

Este é um projeto não só sobre os povos da floresta, mas essencialmente sobre nós, sobre espectros esquecidos de nossa cultura. O documentário teve por objetivo registrar os saberes ancestrais e configurá-los em um livro de plantas medicinais a fim de ampliar a visibilidade dos povos da floresta e contribuir para sua continuidade social, cultural e territorial. Cabe ressaltar que o pedido para a realização desse trabalho partiu dos próprios pajés. 100 plantas foram fotografadas para o livro bem como suas respectivas formas de utilização que podem ser feitas com aplicação de folhas, raízes e cinzas, em chás, banhos e compressas, entre outras formas. 

Foi Exibido no Acampamento Terra Livre, em Brasília, em 2021, na programação cultural do encontro e também na Cinemateca de Curitiba, no evento Amazônia passa por aqui, em 2022. 

Terra sem raízes

O livro foi lançado na Comic Con EXperience e teve parte de sua arrecadação destinada à aldeia Kene Mera, do povo Shanenawa, no Acre. Por meio das vendas do livro foram repassados o montante necessário para o registro da associação da aldeia, bem como entregues um notebook para uso da associação e um violão.
No livro acompanhamos a história de um personagem nascido em cidades de árvores, crescido em cidades de concreto e alheio às próprias origens, não por vontade própria. Pai indígena e mãe branca tentaram criá-lo como ser da floresta, mas o destino traçou novos caminhos para a criança. O nome dessa época foi esquecido, assim como as origens em verdes tons. Violência e caos, invasores e metais preciosos, territórios em disputa e silêncio dos governantes causaram a morte do pai indígena; à mãe branca restou a fuga e a distância das memórias manchadas de vermelho. Uma jornada de resgate da ancestralidade!

Nossa Face

A jornada humana não se faz isolada, ela é uma trama interconectada de experiências, simbolismos e um impulso incessante para encontrar harmonia mesmo em meio ao caos. A busca humana por compreensão, a criação de mitos e deuses e a tradução das leis universais refletem a necessidade de interpretar o mundo que nos rodeia, conectando o físico, o espiritual e o intelectual de maneiras que são únicas para nossa espécie. Assim sendo, a narrativa Shanenawa, por meio de suas práticas e cosmovisões, oferece perspectivas fundamentais, frequentemente marginalizadas ou ignoradas pelo pensamento dominante, que nos lembram da harmonia advinda do respeito, da compreensão e da coexistência equilibrada com o mundo natural. Ao preservar o ambiente e honrar as práticas tradicionais, descobrimos não apenas meios de sobrevivência, mas caminhos para uma vida significativa entre ancestralidade e contemporaneidade.

Exposição fotográfica da aldeia Kene Mera, do povo Shanenawa, no Acre, no Festival de Felicidade, Curitiba/PR, em 2022.