Em determinado momento nos sentamos aos pés de uma samaúma mais jovem para que o Dume Pae fosse passado. O Dume Pae, comumente chamado de rapé, é um pó feito a partir da moagem de tabaco e outras plantas medicinais, utilizado tradicionalmente por diversos povos indígenas da América do Sul em cerimônias e rituais. O rapé possui um significado simbólico profundo para essas comunidades e desempenha diversos papéis em suas práticas culturais. Utilizado como um veículo de conexão com o mundo espiritual, permite que os praticantes entrem em contato com os espíritos, antepassados e divindades, facilitando a comunicação com o mundo espiritual, proporcionando proteção e purificação, e aumentando a clareza mental e a consciência. O rapé é soprado nas narinas dos participantes durante os rituais e está associado à tradição, à ancestralidade e à transmissão de conhecimentos. É passado de geração em geração, sendo utilizado como uma forma de conexão com os antepassados e como uma forma de preservar e transmitir a sabedoria ancestral. Ao compartilhar o rapé, os indígenas fortalecem os laços comunitários e reafirmam sua identidade cultural.
A compreensão das raízes de saberes ancestrais está na cosmovisão, e aproveitando que eles mesmos haviam abordado o assunto enquanto caminhávamos, perguntei de forma geral, esperando que alguém se motivasse a responder,
— Como vocês entendem Yuxibu?
Houve um silêncio, como se pensassem na melhor forma de me responder, ou talvez fosse somente minha impressão. O certo é que apenas continuamos sentados, passados alguns instantes Anacã se manifestou.
— Yuxibu é a floresta. Aqui eu estou perto de Yuxibu, cada planta é Yuxibu, nada de mal chega até aqui, aqui é a porta de Yuxibu. Nós somos conhecedores, Yuxibu deixou esse conhecimento pra gente, e assim vamos adiante, trabalhando conhecendo a medicina.
— Então, se todos os seres têm um Yuxibu que os protege, vocês conversam com ele antes de entrar na floresta? — Perguntei.
— Sim, por que tem medicina que você vai atrás dela e ela se esconde, esse é o Yuxibu que protege essa medicina — explicou Anacã.
Teró, que preparava outro sopro de Dume Pae, deixou por um momento de encher o tepi com o pó espalhado na palma de uma de suas mãos. Em seguida, gesticulando com a outra mão, apontou para as plantas ao nosso redor antes de completar a fala de Anacã.
— Yuxibu está em cada ser da floresta. Cada ser tem seu Yuxibu que cuida dele e pra nós tem vários seres Yuxibu que trazem essa proteção que existe no meio de nós.
— E essa proteção vem por meio das medicinas, do trabalho desenvolvido pelos pajés? — questionei Teró.
— Sim, e por isso nossa medicina tem que ser tratada com grande respeito. Só tirar o que é necessário pra que ela responda e possa ser usada pelos pajés. O Yuxibu da floresta traz força e proteção — completou Teró.
Anacã levantou-se e alguns passos depois revirou as folhas caídas no chão e as afastou revelando uma pequena planta. Então fez um sinal para que eu me aproximasse.
— Essa é Tunù Sese, serve pra fazer banho pra criança recém-nascida. Dentro desse trabalho com as medicinas da floresta primeiro a gente pede licença pra Yuxibu e depois vai pra floresta.
— … Como se conversasse com a própria planta — comentei.
— Isso mesmo. Pede licença pra entrar e pra achar fácil a medicina que precisa. Por que tem medicina que você vai atrás dela e ela se esconde, esse é o Yuxibu que protege a medicina, é com ele que a gente fala — explicou Anacã.
— Mas agora não houve essa preparação? — perguntei curioso em saber como se dá a relação do pajé com a planta.
— Ela se iniciou ontem com a cerimônia realizada para que você pudesse entrar na floresta e conhecer as medicinas — argumentou Teró, que já havia se levantado.
