Oficina realizada durante a 16ª Semana de Arte, Cultura e Literatura da Educação de Curitiba reuniu professores para experimentar diferentes maneiras de ler imagens e aproximar a linguagem visual de áreas como Arte, Língua Portuguesa, História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Biologia e questões ambientais.

Estamos cercados por imagens. Elas aparecem nos livros, nas telas dos celulares, nas redes sociais, na publicidade, nos jornais, nos mapas, nas histórias em quadrinhos, nas obras de arte e nos inúmeros registros que produzimos todos os dias. Mas estar cercado por imagens significa necessariamente saber lê-las?

Foi a partir dessa pergunta que nasceu a oficina “Quando a imagem ensina”, realizada durante a 16ª Semana de Arte, Cultura e Literatura da Educação de Curitiba. Voltado a professores, o encontro propôs experimentar possibilidades de trabalhar com imagens, histórias em quadrinhos, xilogravura e cultura popular de maneira crítica, sensível e interdisciplinar, sem exigir dos participantes experiência prévia com produção artística. A proposta partiu de uma ideia simples: antes de ensinar alguém a produzir uma imagem, podemos ensiná-lo a olhar.

Uma imagem também pode ser lida

Diante de uma imagem, nosso primeiro impulso costuma ser tentar identificar aquilo que ela representa. Uma pessoa. Uma paisagem. Uma casa. Um acontecimento. Mas a leitura visual pode começar justamente depois dessa primeira identificação. Por que determinado elemento ocupa o centro da composição? O que permanece nas sombras? Para onde nosso olhar é conduzido? O que a escolha entre preto e branco ou cor provoca? Que informações estão presentes? O que não foi mostrado? Que interpretações diferentes podem surgir diante da mesma cena?

Perguntas assim deslocam a imagem da condição de mera ilustração. Ela passa a ser compreendida como linguagem. E, como toda linguagem, possui escolhas, códigos, silêncios, ambiguidades e possibilidades de interpretação. Foi essa mudança de olhar que orientou parte das atividades realizadas durante a oficina.

Ver, perceber, interpretar

Uma das propostas apresentadas aos professores foi justamente separar três movimentos que muitas vezes acontecem quase simultaneamente diante de uma imagem: ver, perceber e interpretar.

Ver é reconhecer aquilo que está diante de nós. Perceber exige permanecer um pouco mais. Observar relações, detalhes, contrastes, gestos, espaços, texturas e escolhas de composição. Interpretar significa começar a construir sentidos a partir desses elementos. Essa distinção é especialmente interessante em sala de aula porque retira do professor a obrigação de apresentar imediatamente uma interpretação considerada correta. Em vez de começar dizendo aos estudantes o que determinada imagem significa, é possível começar perguntando:

O que vocês veem?

Depois:

O que nessa imagem faz vocês perceberem isso?

E somente então:

O que podemos interpretar a partir do que observamos?

A imagem deixa de ser uma resposta e passa a produzir perguntas.

Quando os quadrinhos entram em sala de aula

As histórias em quadrinhos oferecem um território particularmente fértil para esse tipo de experiência. Uma HQ não conta sua história apenas pelas palavras. O tamanho dos quadros, o enquadramento, a distância entre personagens, a repetição de determinadas imagens, as áreas de silêncio, a passagem de uma página para outra e até aquilo que acontece entre dois quadrinhos participam da narrativa. O leitor precisa preencher intervalos. Imaginar movimentos. Relacionar acontecimentos. Perceber mudanças de tempo e espaço. Interpretar expressões e símbolos. É justamente por exigir essa participação que a linguagem dos quadrinhos pode se tornar uma ferramenta interessante para diferentes áreas do conhecimento.

Uma imagem pode atravessar muitas disciplinas

Outro eixo da oficina foi questionar a ideia de que trabalhar com imagens seria responsabilidade exclusiva das aulas de Arte. Uma fotografia histórica pode ser simultaneamente documento e construção de um ponto de vista. Uma paisagem pode permitir discutir território, ocupação humana e transformações ambientais. Uma história em quadrinhos pode mobilizar linguagem verbal e visual, memória, relações sociais, identidade, conflitos históricos e questões éticas. Uma xilogravura pode conduzir à literatura de cordel, à cultura popular, às técnicas de impressão e às circunstâncias sociais e territoriais em que determinadas manifestações culturais se desenvolveram.

Por isso, durante o encontro, foram exploradas possibilidades de aproximação com Arte, Língua Portuguesa, História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Biologia e questões ambientais. Não se trata de fazer com que uma única imagem obrigatoriamente dialogue com todas essas disciplinas. Trata-se de perceber que as fronteiras entre os conhecimentos podem ser muito menos rígidas quando começamos por uma pergunta, uma narrativa ou uma imagem.

Entrando em Urubu-Rei

A HQ Urubu-Rei foi utilizada durante a oficina como uma das possibilidades práticas desse percurso. Construída em preto e branco e em diálogo visual com a xilogravura, a obra permitiu observar como contraste, enquadramento, sequência, silêncio e composição também participam da construção de uma narrativa. Em vez de utilizar os quadrinhos somente para perguntar “o que acontece nesta história?”, a proposta foi experimentar outras perguntas:

Como essa história está sendo contada?

Por que determinada cena foi representada dessa maneira?

O que muda quando retiramos as palavras e observamos somente as imagens?

Que sensações são produzidas pelas áreas de preto e pelos espaços em branco?

O que conseguimos compreender antes mesmo de ler qualquer texto?

Nesse processo, a HQ deixa de ser apenas uma obra a ser lida e passa a funcionar como um laboratório de linguagem visual. A experiência também apresentou possibilidades de utilização do material pedagógico desenvolvido a partir de Urubu-Rei, ampliando caminhos para que professores possam adaptar essas propostas às características de suas próprias turmas.

O professor não precisa ser artista para trabalhar com arte

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da proposta. Muitos educadores reconhecem o potencial das imagens, dos quadrinhos e das manifestações artísticas em sala de aula, mas podem sentir que precisam dominar técnicas de desenho, história da arte ou produção visual antes de utilizá-las. Não precisam. Trabalhar com uma imagem não significa necessariamente ensinar alguém a desenhar. Pode significar ensinar a observar, comparar, perguntar, relacionar e construir interpretações.

Nesse sentido, o professor não precisa ocupar o lugar daquele que possui todas as respostas sobre uma obra. Pode ser aquele que cria as condições para que diferentes olhares apareçam. E isso muda significativamente a experiência. Diante de uma mesma imagem, dois estudantes podem perceber coisas diferentes. Em vez de representar um problema, essa diferença pode se transformar justamente no início da conversa: por que você percebeu algo que eu não havia percebido?

Educar o olhar em um mundo de imagens

Talvez nunca tenhamos produzido e consumido tantas imagens quanto hoje. Por isso, aprender a observá-las criticamente deixou de ser apenas uma habilidade relacionada às artes. É também uma forma de leitura do mundo. Perguntar quem produziu uma imagem, em que contexto ela circula, o que escolhe mostrar, o que deixa de fora e quais emoções procura despertar contribui para formar leitores mais atentos às linguagens que atravessam seu cotidiano. Foi essa perspectiva que orientou “Quando a imagem ensina”.

Não oferecer uma fórmula para trabalhar com arte. Mas abrir possibilidades. Porque uma imagem pode ser linguagem, narrativa, interpretação e documento culturalE talvez uma das perguntas mais importantes que um professor possa fazer diante dela seja também uma das mais simples: O que existe aqui que ainda não vimos?.

A realização da oficina integrou a programação da 16ª Semana de Arte, Cultura e Literatura da Educação de Curitiba, ação formativa da Secretaria Municipal da Educação de Curitiba voltada à ampliação do repertório artístico e cultural dos profissionais da educação.

Instituto Urukum agradece à Secretaria Municipal da Educação pela oportunidade de diálogo com os professores e à Fundação Cultural de Curitiba e à Gibiteca de Curitiba pelo encontro e pela valorização de espaços em que arte, cultura e educação possam continuar produzindo novas formas de olhar