Um encontro com 17 mulheres de três comunidades quilombolas do Paraná colocou diferentes gerações em diálogo sobre ancestralidade, território, violência, fé e resistência. Anos depois, as narrativas compartilhadas naquele dia também deram origem a um artigo científico publicado internacionalmente.
Há histórias que parecem pertencer a um determinado tempo e lugar. Até que são contadas novamente e encontram outras histórias. Foi o que aconteceu durante uma vivência que reuniu 17 mulheres, com idades entre 20 e 65 anos, das comunidades quilombolas de Restinga, Feixo e Vila Esperança, no município da Lapa, Paraná. O encontro fazia parte de uma pesquisa sobre ancestralidade, identidade, pertencimento e resistência, mas foi pensado para ir além do formato convencional de uma entrevista ou coleta de dados.
Durante quatro horas, as participantes estiveram reunidas em um espaço dedicado à arte e à dança. A proposta combinou exercícios de sensibilização, expressão corporal, escuta e partilha de experiências. Em uma das etapas, cada mulher teve seu tempo para falar sem interrupções. Depois, práticas corporais e uma meditação ajudaram a conduzir o grupo novamente ao presente e a integrar aquilo que havia sido compartilhado.
Aos poucos, surgiram histórias de infância, família, trabalho, relações com a terra, espiritualidade e pertencimento. Mas também relatos difíceis: pobreza, racismo, violência doméstica, alcoolismo, depressão, abandono e diferentes formas de invisibilidade social. E foi nesse espaço de escuta que uma mulher nascida mais de um século antes passou, simbolicamente, a fazer parte da roda.
Carolina Maria de Jesus entra na conversa
Publicada originalmente em 1960, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, é uma das obras mais importantes da literatura brasileira do século XX. Mulher negra, pobre, moradora da favela do Canindé, em São Paulo, Carolina registrava em cadernos o cotidiano que vivia: a fome, a desigualdade, o racismo, as dificuldades para sustentar os filhos e também sua maneira singular de observar o mundo.
Ao transformar sua experiência cotidiana em escrita, Carolina fez algo que ultrapassava a autobiografia. Sua palavra se tornou denúncia e documento histórico, colocando no centro da literatura brasileira uma voz que as estruturas sociais, intelectuais e editoriais de sua época frequentemente mantinham à margem. O livro viria a ser traduzido para mais de 14 idiomas. Na vivência com as mulheres quilombolas, porém, Quarto de Despejo não foi apresentado simplesmente como um livro para ser estudado.
Ele entrou na roda como uma possibilidade de diálogo. Das 17 participantes, apenas três conheciam previamente Carolina Maria de Jesus e sua obra. Por isso, antes das leituras, foram apresentados aspectos de sua trajetória e a importância histórica de uma mulher negra escrever sobre sua própria experiência de pobreza, violência racial, invisibilidade e perseverança. Trechos do livro foram então lidos e colocados em conversa com as experiências que surgiam no grupo.
E algo aconteceu. Mesmo separadas de Carolina por décadas e por contextos bastante diferentes, de um lado, uma mulher vivendo em uma favela paulistana nos anos 1950; de outro, mulheres quilombolas vivendo no Paraná contemporâneo, muitas participantes reconheceram partes de suas próprias trajetórias naquela escrita.
O artigo registra que algumas mulheres manifestaram uma identificação emocional profunda com as palavras de Carolina. Os relatos sobre dificuldades materiais, exclusão, violência doméstica e abandono social eram reconhecidos como experiências que, de diferentes maneiras, também atravessavam suas vidas. Algumas diziam que Carolina parecia “falar por nós” ou “contar nossa história”. A literatura havia criado uma ponte.
O que apareceu quando as mulheres começaram a falar
Depois do encontro, os depoimentos foram transcritos e analisados qualitativamente. Das narrativas foram identificadas 183 unidades de significado, posteriormente organizadas em oito grandes categorias. Entre os temas que apareceram com maior intensidade estavam resiliência e solidariedade, com 42 ocorrências; precariedade material, com 29; violência doméstica, com 26; e fé e espiritualidade, com 24. Também surgiram questões relacionadas ao sofrimento emocional e alcoolismo, racismo, vínculo com a terra e conexão ancestral. Os números, entretanto, contam apenas uma parte dessa história.
Ao lado das experiências de violência e precariedade, apareciam constantemente formas de sustentação da vida: mulheres que cuidavam umas das outras, compartilhavam alimentos, acolhiam crianças, mantinham relações com a terra e encontravam na família, na comunidade, na fé e na memória das gerações anteriores recursos para continuar. Nesse sentido, a ancestralidade começou a aparecer de maneira diferente daquela que muitas vezes encontramos no imaginário popular.
Não apenas como lembrança dos antepassados. Mas como algo que continua agindo no presente. Uma das participantes sintetizou essa percepção ao dizer que a história dos ancestrais também é a história das mulheres que vivem hoje. Outra relacionou diretamente ancestralidade à possibilidade de transformar a dor.
A terra também ocupou um lugar importante nessas narrativas. Restinga, Feixo e Vila Esperança compartilham uma história marcada por processos de territorialização, perda, reconfiguração e resistência. Restinga e Feixo têm suas origens ligadas a famílias negras que se estabeleceram nesses territórios ainda antes da abolição formal da escravidão. Vila Esperança surgiu posteriormente, em um processo de reconfiguração territorial envolvendo famílias oriundas do Feixo. Atualmente, as três comunidades possuem certificação quilombola da Fundação Cultural Palmares, mas ainda não receberam a titulação definitiva de seus territórios pelo Incra.
Por isso, falar de ancestralidade significava também falar de território. Da terra onde viveram mães e avós. Dos lugares de cultivo. Das histórias contadas dentro das famílias. Dos conhecimentos transmitidos entre gerações. E também do direito de permanecer.
Da roda de conversa para a produção científica
As histórias daquele encontro não permaneceram apenas no campo. A experiência tornou-se a base para o artigo “Ancestrality, memory, and resistance in Quilombola women’s voices: a critical analysis through Quarto de Despejo”, de Fabio Gimovski e Cintia Mara Ribas de Oliveira, publicado em março de 2026 na revista internacional Latin American and Caribbean Ethnic Studies, da Taylor & Francis.
No artigo, Carolina Maria de Jesus ocupa uma posição incomum. Em vez de utilizar Quarto de Despejo apenas como ilustração para conceitos produzidos pela academia, a pesquisa reconhece sua literatura como produção de conhecimento. A experiência narrada por Carolina é colocada em diálogo com as narrativas contemporâneas das mulheres quilombolas, criando um encontro entre literatura, memória e pesquisa social. Essa escolha também levanta uma questão importante: quem reconhecemos como alguém capaz de produzir conhecimento?
Carolina escreveu a partir da favela. As mulheres quilombolas falam a partir de suas comunidades, de suas famílias e de experiências transmitidas entre gerações. Colocar essas vozes em diálogo significa reconhecer que conhecimento não é produzido apenas dentro das universidades. Ele também nasce da experiência. Da oralidade. Da memória. Do território.
Ancestralidade também fala sobre o futuro
Uma das principais conclusões da pesquisa talvez esteja justamente aí. A ancestralidade encontrada nas narrativas dessas mulheres não aparece como uma tentativa de retornar a um passado idealizado. Ela funciona como uma força que conecta passado, presente e futuro. Está na memória das mães e avós, mas também no cuidado com os filhos. Está na relação com a terra, mas também na luta para que as próximas gerações possam permanecer nela. Está nas histórias recebidas, mas igualmente naquelas que ainda serão contadas. Por isso, o artigo propõe compreender a ancestralidade não apenas como herança cultural, mas como uma prática viva de memória, cuidado, pertencimento e resistência.
Talvez seja também por isso que, tantas décadas depois de escrever seus cadernos no Canindé, Carolina Maria de Jesus tenha conseguido entrar naquela roda de mulheres no Paraná. Não porque suas histórias fossem iguais. Mas porque algumas experiências conseguem atravessar o tempo e reconhecer umas às outras. E quando uma mulher encontra palavras para contar sua própria história, outras talvez também encontrem maneiras de contar as suas.
