MAS CONTINUAMOS GOSTANDO DE FOGUEIRAS.

Mudaram os instrumentos, as palavras e as maneiras de demonstrar virtude. Nossa dificuldade de conviver com o pensamento do outro, porém, talvez seja mais antiga do que gostamos de admitir.

Em 1486, Giovanni Pico della Mirandola tinha 23 anos e um plano relativamente modesto: reunir em Roma estudiosos de diferentes lugares para discutir novecentas teses. Modesto, evidentemente, para os padrões de um jovem renascentista. Pico estudava filosofia grega, cristianismo, pensamento árabe e judaico, entre outras tradições. Interessava-lhe justamente aquilo que hoje costuma provocar alguma desconfiança: aproximar conhecimentos que haviam aprendido a viver separados.

A experiência não terminou muito bem.

Parte de suas teses foi considerada herética. O debate público que pretendia realizar foi impedido e Pico entrou em conflito com a autoridade papal. Pouco mais de um século depois, Giordano Bruno teria destino muito pior. Depois de anos de processo pela Inquisição romana, foi condenado e executado na fogueira em 1600. É tentador olhar para essas histórias com a tranquilidade que cinco séculos de distância nos oferecem.

Ainda bem que não somos mais assim.

Bem…

A fogueira ganhou uma interface melhor

Seria absurdo dizer que uma execução promovida pela Inquisição e uma campanha de hostilidade nas redes sociais são acontecimentos equivalentes. Não são. Giordano Bruno não perdeu seguidores. Perdeu a vida. A diferença importa.

Mas talvez exista algo que possamos observar antes de nos declararmos completamente diferentes daqueles homens do passado: o desejo de fazer desaparecer aquilo que nos perturba. Durante séculos, autoridades religiosas e políticas proibiram livros, perseguiram autores, destruíram obras e tentaram controlar quais ideias poderiam circular.

Hoje dispomos de instrumentos muito diferentes. Criticamos publicamente, denunciamos, deixamos de seguir, bloqueamos, organizamos boicotes, expomos frases antigas, produzimos capturas de tela e, em poucos minutos, podemos convocar milhares de desconhecidos para um julgamento coletivo.

Algumas dessas ferramentas são necessárias. Denunciar racismo, violência, perseguição ou abuso não é censura. Criticar uma ideia também não é tentar silenciá-la. Aliás, liberdade de expressão nunca significou liberdade de resposta. O ponto interessante começa um pouco depois. Começa quando discordar já não basta.

Há uma diferença entre combater uma ideia e eliminar uma pessoa

As redes sociais são especialmente eficientes em apagar essa diferença. Uma frase infeliz pode se transformar rapidamente em biografia. Um erro passa a explicar uma pessoa inteira. Um posicionamento inadequado atravessa dez anos intacto, como se ninguém pudesse rever o que pensava. E existe ainda um mecanismo curioso: frequentemente sabemos muito pouco sobre quem estamos julgando. Isso raramente atrapalha.

Em poucos segundos sabemos quem a pessoa é, o que realmente pensa, quais são suas intenções e, dependendo do entusiasmo da caixa de comentários, provavelmente o que fazia no verão de 2007. Não se trata de defender que toda opinião seja aceitável. Ideias racistas, misóginas, autoritárias ou que neguem a dignidade de outras pessoas precisam ser enfrentadas. Uma sociedade democrática depende também da possibilidade de contestação.

Mas contestar exige alguma coisa do outro. Eliminar exige muito pouco. Talvez seja essa a distinção que valha preservar.

Há preconceitos que não desapareceram. Só aprenderam a se vestir melhor.

Cada época desenvolve seu vocabulário moral. Aprendemos palavras novas. Revemos expressões. Reconhecemos violências que durante muito tempo foram tratadas como naturais. Isso representa uma mudança social real e necessária. O problema começa quando confundimos conhecer o vocabulário da mudança com ter sido transformado por ela.

É perfeitamente possível aprender todas as palavras esperadas e continuar incapaz de escutar alguém diferente. É possível defender diversidade e desejar conviver apenas com quem pensa como nós. É possível falar sobre acolhimento enquanto se escolhe cuidadosamente quem merece ser acolhido. Também é possível condenar publicamente um preconceito porque aprendemos que ele deve ser condenado, e preservá-lo, discretamente, quando ninguém está olhando.

O preconceito, afinal, também aprende. Percebe quais roupas já não pode usar em público, troca algumas palavras, atualiza o vocabulário e volta para a sala. Às vezes ninguém percebe.

Heinrich Heine percebeu a fogueira

Em 1821, o poeta alemão Heinrich Heine publicou a peça Almansor. Nela aparece uma frase que se tornaria conhecida muito tempo depois: “Onde queimam livros, acabarão queimando também seres humanos.”

Heine escrevia sobre outro contexto histórico. Não estava profetizando literalmente os acontecimentos do século seguinte. Ainda assim, pouco mais de cem anos depois, seus próprios livros estariam entre aqueles queimados publicamente na Alemanha nazista. A coincidência histórica é difícil de ignorar.

Queimar um livro nunca resolve o problema que o livro apresenta. Apenas elimina temporariamente sua presença. Talvez seja por isso que sociedades autoritárias tenham tanta preocupação com bibliotecas, escolas, artistas, professores, jornalistas e escritores. Ideias têm um hábito inconveniente. Circulam.

Então chega Belchior para estragar nossa sensação de superioridade

Em 1976, Belchior escreveu Como Nossos Pais, que se tornaria inseparável da interpretação de Elis Regina. Quase meio século depois, a canção continua provocando certo desconforto porque atinge uma fantasia recorrente: a de que cada geração rompeu definitivamente com aquela que veio antes. Mudamos as roupas. Mudamos as músicas. Mudamos o vocabulário. Mudamos as causas pelas quais brigamos. E então, em algum momento, encontramos em nós mesmos alguma coisa que jurávamos ter deixado para trás. Belchior sabia onde doía. E é justamente aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre censura e começa a falar de ancestralidade.

Nem tudo o que herdamos merece ser preservado

Quando falamos em ancestralidade, existe uma tendência compreensível de procurar aquilo que merece continuidade: memória, pertencimento, conhecimentos, vínculos, histórias, formas de cuidado. Mas herança não é sinônimo de virtude. Também recebemos medos. Silêncios. Hierarquias. Preconceitos. Maneiras de excluir.

Algumas chegam até nós claramente reconhecíveis. Outras atravessam gerações tão bem adaptadas que parecem nossas. Por isso uma relação madura com a ancestralidade não exige fidelidade absoluta ao passado. Às vezes honrar quem veio antes significa continuar. Às vezes significa interromper. E talvez essa seja uma das formas mais difíceis de transformação: perceber que aquilo que combatemos no mundo pode ter deixado alguma coisa dentro de nós.

O problema é sempre o preconceito do outro

Há algo confortável em identificar intolerância à distância. O racista é o outro. O intolerante é o outro. O fanático é o outro. O censor é o outro. Nós, naturalmente, estamos apenas defendendo o que é certo. É nesse ponto que a história começa a ficar perigosa. Porque praticamente toda forma de intolerância encontrou, em seu próprio tempo, uma justificativa moral para existir. Raramente alguém se levanta pela manhã pensando: hoje serei o vilão da história.

As pessoas acreditam estar protegendo alguma coisa. A verdade. A religião. A tradição. A ordem. A revolução. A justiça. A comunidade. Talvez por isso o teste mais difícil não seja descobrir se somos capazes de defender a diversidade quando ela se parece conosco. É descobrir o que fazemos quando ela discorda de nós.

Pico della Mirandola imaginava o conhecimento como um território onde tradições diferentes poderiam ser colocadas em contato. Isso não significava concordar com tudo. Significava admitir que nenhuma conversa intelectual começa quando já sabemos antecipadamente tudo o que o outro pode dizer.

Cinco séculos depois, temos ferramentas de comunicação que Pico dificilmente conseguiria imaginar. Podemos conversar instantaneamente com pessoas do outro lado do planeta. Podemos acessar bibliotecas inteiras sem sair de casa. Podemos conhecer pensamentos produzidos por culturas às quais nossos antepassados jamais tiveram acesso. E usamos parte dessa tecnologia para discutir com desconhecidos na caixa de comentários. Pico provavelmente ficaria impressionado.

Com a primeira parte.

Não queimamos mais livros

Ao menos não como política cotidiana em boa parte das sociedades democráticas. Isso importa. Mas talvez a fogueira seja uma imagem útil justamente porque nos obriga a perguntar o que fazemos com aquilo que não queremos ouvir. Não precisamos aceitar todas as ideias. Não precisamos abandonar convicções. Não precisamos transformar intolerância em opinião respeitável. Precisamos apenas preservar uma distinção que anda bastante maltratada: uma pessoa não é uma ideia.

Ideias podem ser confrontadas, desmontadas, recusadas e substituídas. Pessoas podem aprender. Inclusive nós. Talvez a maior dificuldade de cada geração seja admitir que não chegou ao fim da história moral. Nossos descendentes provavelmente olharão para algumas de nossas certezas com o mesmo espanto com que observamos determinados costumes do passado.

E talvez descubram que alguns preconceitos que julgávamos ter vencido estavam por aqui o tempo todo. Bem articulados. Com a terminologia atualizada. E, provavelmente, com uma ótima foto de perfil.