Nascido do encontro com pajés Shanenawa no Acre, Rau Xarahu registra plantas medicinais, palavras e saberes transmitidos entre gerações. Mais do que um catálogo, o livro revela outra maneira de compreender a relação entre seres humanos, floresta, memória e conhecimento.
A manhã começava na aldeia Kene Mera, em Feijó, no Acre. O ponto de partida era a casa de rezos. Dali, o grupo seguia floresta adentro. Ao lado de sete pajés Shanenawa, cada caminhada se transformava em um percurso de reconhecimento: plantas eram localizadas e identificadas, seus nomes pronunciados, seus usos explicados. Enquanto os pajés compartilhavam seus conhecimentos, as espécies eram fotografadas e as informações, cuidadosamente anotadas.
As caminhadas se estendiam até perto do meio-dia. Depois do almoço começava uma segunda etapa do trabalho. Era hora de descarregar as fotografias, organizar as anotações e conferir novamente o que havia sido registrado.
Em um único dia, cerca de 30 plantas podiam passar por esse processo. Foi desse movimento entre caminhar, ouvir, fotografar, perguntar e registrar que começou a tomar forma Rau Xarahu – Plantas Medicinais Shanenawa. Mas a história do livro começa antes das caminhadas. Começa com uma preocupação dos próprios Shanenawa: o que acontece quando os mais velhos partem e determinados conhecimentos deixam de ser transmitidos?
Uma biblioteca viva chamada floresta
Na apresentação de Rau Xarahu, Maná Shanenawa — Markone Brandão da Silva Shanenawa — explica por que decidiu falar sobre as plantas medicinais de seu povo.
Segundo ele, são cada vez menos os mais velhos que mantêm vivos determinados conhecimentos sobre as plantas e seus usos. O registro surge, portanto, como uma maneira de contribuir para que esses saberes possam chegar aos filhos e aos netos. Para explicar essa transmissão, Maná utiliza uma imagem especialmente poderosa: a floresta como uma biblioteca viva.
Seu próprio aprendizado mostra como essa biblioteca atravessa gerações. Para desenvolver o trabalho, ele contou com os conhecimentos de sua mãe, Matsiani Juraci, e de sua avó, Atxî Maxi. Antes do livro, Maná já acompanhava famílias e recém-nascidos e procurava identificar as enfermidades mais presentes na comunidade, relacionando-as às plantas tradicionalmente utilizadas, às partes empregadas e às formas de preparação. O material registrado também foi pensado para contribuir com a formação de novos pajés na aldeia Kene Mera.
Rau Xarahu, portanto, não nasceu simplesmente de uma pesquisa sobre os Shanenawa. O livro nasceu de uma demanda dos próprios pajés da aldeia Kene Mera. Essa diferença é fundamental. Registrar um conhecimento tradicional não significa retirá-lo de seu território para transformá-lo em informação. Significa reconhecer quem produz esse conhecimento, a quem ele pertence e quais relações culturais, espirituais e territoriais permitem que continue existindo.
Quando o nome de uma planta também guarda uma cultura
Durante o trabalho de campo, uma das dificuldades parecia pequena, mas revelava uma questão muito maior: como escrever corretamente o nome de uma planta em Shanenawa?
Algumas palavras se aproximavam das utilizadas por outros povos da mesma família linguística. Outras eram bastante diferentes. Uma planta utilizada tradicionalmente para os olhos, por exemplo, é chamada Nui Tasaya em Shanenawa e Nui Rimi Tasaya entre os Huni Kuin. Já uma planta associada ao sono recebe o nome Kuma Usha entre os Shanenawa e Usharau entre os Huni Kuin.
Registrar uma planta, portanto, significava registrar muito mais do que uma espécie. Significava registrar uma palavra. E uma palavra pode carregar consigo memória, língua, identidade e uma maneira particular de compreender o mundo.
É também por isso que a oralidade ocupa uma posição central nesse trabalho. Entre os Shanenawa, histórias, medicinas, cantos e rezos permanecem especialmente vinculados aos mais velhos, que funcionam como verdadeiros repositórios vivos de conhecimentos construídos e transmitidos ao longo das gerações.
Uma planta não é apenas uma planta
Talvez uma das maiores diferenças entre uma leitura convencional da floresta e aquela encontrada durante as caminhadas esteja justamente aqui. Para quem observa de fora, uma planta medicinal pode ser compreendida principalmente por aquilo que contém: princípios ativos, propriedades químicas, possibilidades farmacológicas. Na cosmovisão Shanenawa, essa relação é mais ampla.
O conhecimento medicinal está ligado à experiência, à oralidade, aos ensinamentos dos mais velhos e também a uma dimensão espiritual da floresta. O artigo produzido posteriormente a partir da pesquisa observa que, para cada planta, existe uma história e um uso específico; os pajés aparecem, nesse contexto, simultaneamente como guardiões e pesquisadores de sua própria ancestralidade. É nesse universo que aparece um conceito fundamental da cosmovisão Shanenawa: Yuxibu.
Para os Shanenawa, Yuxibu está relacionado à própria floresta e aos seres que nela existem. Árvores, plantas, animais, rios, vento, chuva e terra participam desse mundo sensível. A floresta deixa de ser apenas um conjunto de recursos disponíveis aos seres humanos e passa a ser compreendida dentro de uma rede de relações.
Essa compreensão produz consequências muito concretas. Um dos pajés explica, por exemplo, que não se deve simplesmente chegar até uma planta medicinal e retirar suas folhas. É necessário estabelecer uma relação com aquela medicina antes da coleta.
O que poderia parecer apenas uma dimensão simbólica passa, então, a orientar comportamentos. As plantas medicinais são retiradas quando necessárias, evitando sua exploração até o esgotamento. Cuidar da floresta e manter o conhecimento sobre ela tornam-se dimensões de uma mesma prática.
Conhecimento que passa de uma geração para outra
Durante as conversas com os pajés, outra preocupação aparecia repetidamente: a continuidade. Aprender sobre as medicinas não é um processo que começa na vida adulta. Alguns dos relatos mostram crianças acompanhando pais, mães, tios e outros conhecedores da floresta desde muito cedo. Um pajé conta ter começado aos seis anos; outro recorda sua aproximação aos 12; outra participante descreve como acompanhava familiares nas idas à floresta e afirma: “ali era minha pesquisa”.
A frase ajuda a deslocar novamente nossa ideia sobre onde o conhecimento é produzido.
A floresta pode ser espaço de pesquisa.
Os mais velhos podem ser professores.
A oralidade pode ser arquivo.
E caminhar pode ser uma forma de aprender.
Preservar esses conhecimentos, portanto, não significa congelá-los no passado. Significa permitir que continuem circulando.
Da floresta para as páginas de Rau Xarahu
Publicado em 2023 pela Editora Urukum, Rau Xarahu – Plantas Medicinais Shanenawa tem seus direitos reservados à AMCAP – Associação Manoel Carlos da Aldeia Paredão. A publicação foi organizada por Fabio Gimovski e reúne saberes compartilhados por integrantes Shanenawa. A própria capa traz uma pintura de Hua Busê representando a história do Uni.
Em suas páginas, fotografias das plantas são acompanhadas de seus nomes e dos conhecimentos tradicionais relacionados a seus usos e formas de preparação. O livro também assumiu uma característica importante: a circulação entre diferentes línguas. O conteúdo foi organizado em português, inglês e espanhol, ampliando as possibilidades de acesso ao trabalho sem retirar dos Shanenawa a centralidade sobre os conhecimentos registrados.
A pesquisa que deu suporte à publicação integrou uma dissertação de mestrado sobre ancestralidade indígena e passou pelas instâncias éticas e institucionais necessárias para pesquisas envolvendo povos indígenas e conhecimento tradicional associado, incluindo CONEP, FUNAI, CNPq e SisGen. O trabalho também considerou as normas relacionadas aos direitos indígenas, conhecimento tradicional e direitos autorais.
Isso é particularmente importante quando falamos de conhecimentos tradicionais: registrar não pode significar apropriar-se.
Quando um livro continua produzindo caminhos
Rau Xarahu não encerrou a pesquisa. Ao contrário: tornou-se um de seus desdobramentos. As caminhadas, relatos e experiências compartilhadas pelos pajés também contribuíram para outras formas de circulação desse conhecimento, entre elas registros audiovisuais e produção científica.
Um desses resultados foi o artigo “Territórios do saber: a integração de saberes ancestrais e conservação ambiental na cosmovisão Shanenawa”, de Fabio Gimovski, publicado na revista História Oral. No artigo, a experiência ganha outra dimensão. A questão deixa de ser somente quais plantas são conhecidas ou utilizadas e passa a investigar o que a relação dos Shanenawa com a floresta pode nos ensinar sobre conservação ambiental.
A pesquisa aponta a oralidade como uma forma fundamental de produção e transmissão da memória coletiva e mostra como os conhecimentos ecológicos tradicionais estão ligados à cosmovisão, à ancestralidade e às relações cotidianas com o território. Assim, práticas de conservação não aparecem necessariamente como um conjunto externo de regras dizendo o que deve ou não ser feito. Elas podem nascer da própria maneira como uma sociedade compreende seu lugar no mundo.
Quando a floresta deixa de ser vista apenas como recurso e passa a ser reconhecida como parte de uma rede de relações, como território, memória, medicina e presença, cuidar dela deixa de ser uma obrigação abstrata.
Torna-se parte da cultura.
Há conhecimentos que só permanecem vivos quando continuam circulando
No início dessa história havia uma preocupação: alguns dos mais velhos que guardavam determinados saberes um dia não estariam mais ali.
Depois vieram as caminhadas.
As plantas.
As fotografias.
As palavras anotadas cuidadosamente.
As conversas depois do almoço.
O livro.
O vídeo.
O artigo científico.
São linguagens diferentes para uma mesma questão: como permitir que um conhecimento atravesse gerações sem perder a relação com o povo e o território que lhe dão sentido?
Talvez a imagem escolhida pelos pajés continue sendo a melhor resposta. A floresta é uma biblioteca viva. Mas uma biblioteca viva não existe apenas porque guarda conhecimento.
Ela permanece viva porque ainda existem pessoas dispostas a aprender, ensinar, ouvir e transmitir.
