Em meio à mata e à sabedoria ancestral dos Shanenawa, o diário de campo tornou-se mais do que uma ferramenta de registro: ele se transformou em uma ponte entre mundos. A escolha por um diário descritivo, reflexivo e ilustrado não foi apenas um detalhe metodológico, mas uma estratégia poderosa para acessar a cosmovisão dos pajés, guardiões dos segredos da floresta.
Os desenhos, riscados com linhas rápidas e detalhadas, não apenas registraram a flora e os gestos, mas também capturaram a essência do momento. A arte contida nessas páginas foi o catalisador para diálogos profundos, permitindo que a atenção dos pajés fluísse de maneira espontânea. Eles não apenas narravam histórias e explicavam usos das plantas medicinais, mas também se tornavam coautores do diário, indicando detalhes adicionais a serem desenhados ou anotados.
A cada passo na floresta, o diário ganhava vida. Enquanto Anacã liderava o grupo, descrevendo as propriedades de cada planta coletada, o caderno nas mãos era preenchido com traços ágeis e palavras que traduziam o universo compartilhado. O pajé Naru, sempre atento, participava ativamente, corrigindo traços, adicionando informações e guiando a percepção do que deveria ser destacado.
O processo artístico não apenas documentou, mas também respeitou e celebrou a cultura Shanenawa. A presença do desenho transformou o diário em um espaço de colaboração e troca, onde o saber ancestral encontrou eco na expressão artística. Foi um lembrete de como a arte pode criar diálogos além das palavras, conectando mundos que, à primeira vista, podem parecer tão distantes.
O diário de campo ilustrado não é apenas um testemunho visual de uma experiência científica, mas também um símbolo da interconexão entre pesquisa e respeito cultural. Afinal, não se trata apenas de explorar a floresta ou compreender suas plantas, mas de caminhar lado a lado com aqueles que guardam seus segredos, construindo um retrato coletivo de um mundo pleno de significados e tradições.
