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E se a crise ambiental também for uma crise de ancestralidade?

Entre raízes, estradas, rios e florestas, o livro Antes da primeira raiz – Ancestralidades para um mundo em transformação propõe uma reflexão sobre aquilo que nos conecta à Terra, às gerações que vieram antes e àquelas que ainda estão por vir.

Quando pensamos em ancestralidade, é comum que a primeira imagem seja a do passado. Nossos antepassados. Histórias familiares. Tradições. Povos. Memórias transmitidas entre gerações.

Mas e se ancestralidade também fosse uma maneira de pensar o futuro?

Essa é uma das provocações presentes em Antes da primeira raiz – Ancestralidades para um mundo em transformação, de Fabio Gimovski, lançado em 2025 pela Editora Urukum. No capítulo “Essencialmente humano”, arte, literatura, música, filosofia e questões ambientais se encontram para discutir uma pergunta que atravessa toda a obra: o que significa pertencer a uma história que começou muito antes de nós e continuará depois de nossa passagem?

A resposta começa pelas raízes.

Raízes também podem se mover

Em Raízes, Frida Kahlo representa seu próprio corpo fundindo-se à terra. Dele surgem raízes que atravessam o solo, transformando pertencimento em imagem. No capítulo, a pintura serve como ponto de partida para pensar a ancestralidade não como algo abstrato, mas como vínculo entre histórias individuais e coletivas.

Há, porém, uma ressalva importante. Nem toda ancestralidade precisa ser romantizada. O passado também pode carregar silêncios, violências, exclusões e histórias com as quais uma pessoa não deseja se reconciliar. Reconhecer a importância das raízes não significa estar condenado a reproduzi-las. Há também o direito ao desvio, ao recomeço e até mesmo à escolha de deixar determinados legados para trás.

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes do capítulo: ancestralidade não como obrigação de pertencer, mas como possibilidade de compreender de onde viemos para escolher como queremos continuar. E é justamente aí que passado e futuro começam a se encontrar.

Estradas somos

Da pintura de Frida Kahlo, o capítulo atravessa outra paisagem. Em Caipira Picando Fumo, de Almeida Júnior, um homem está sentado diante de uma casa. Os pés descalços encontram o chão. Os tons da pele, das roupas e da terra parecem participar de uma mesma atmosfera.

O cotidiano se transforma em território. A imagem conduz a uma ideia de sociobiodiversidade: a diversidade da vida não está apenas nas espécies que habitam determinado lugar, mas também nas culturas, práticas, memórias e conhecimentos desenvolvidos pelas pessoas em relação aos seus territórios.

Quase um século depois da pintura de Almeida Júnior, outra imagem de movimento aparece em uma canção brasileira. Tocando em Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, transforma a existência em estrada.

No capítulo, pintura e música começam então a conversar. A estrada deixa de ser apenas o lugar pelo qual caminhamos. Nós também somos a estrada. Somos aquilo que recebemos, aquilo que aprendemos durante o percurso e aquilo que deixaremos para quem vier depois.

Rios somos

Mais adiante, a estrada encontra um rio. Em Sidarta, de Hermann Hesse, o personagem atravessa uma longa jornada procurando respostas. Aos poucos, porém, descobre que a sabedoria não está simplesmente nas doutrinas que alguém pode lhe ensinar.

É preciso viver.

Errar.

Observar.

E aprender a escutar.

É junto ao rio que essa transformação se torna especialmente evidente. A água que passa nunca é exatamente a mesma, mas o rio permanece. Há algo profundamente ancestral nessa imagem. Cada geração chega e parte. Cada pessoa atravessa um pequeno trecho da história. Ainda assim, participamos de algo que começou antes de nossa existência e continuará depois dela.

Se somos estrada, também somos rio.

Florestas somos

É nesse ponto que a reflexão deixa de tratar apenas da identidade humana e encontra diretamente a crise ambiental. O capítulo apresenta uma afirmação provocadora:

“A crise ecológica não é apenas ambiental. É também uma crise da ancestralidade.”

Quando uma floresta desaparece, não desaparecem somente árvores. Quando uma espécie é extinta, perde-se uma trajetória evolutiva construída durante milhares ou milhões de anos. Quando um território é destruído, também podem desaparecer palavras, práticas, histórias, relações e conhecimentos construídos pelas sociedades que aprenderam a viver naquele ambiente. A perda da biodiversidade pode ser, simultaneamente, perda de memória.

É por isso que o capítulo aproxima perspectivas distintas — da teoria de Gaia de James Lovelock às reflexões de Leonardo Boff, Bruno Latour e Lúcia Santaella — para encontrar entre elas um ponto comum: a vida existe por meio de relações de interdependência.

Não estamos diante da natureza. Estamos dentro dela.

Cada espécie extinta é como um livro queimado

Talvez uma das imagens mais fortes do capítulo surja justamente quando essa discussão encontra o problema da extinção. Ao longo da história humana, destruir livros significou muitas vezes tentar eliminar ideias, memórias e maneiras de compreender o mundo.

O capítulo transporta essa imagem para a biodiversidade:

“Cada espécie extinta é um livro queimado na imensa biblioteca da vida.”

Uma espécie é resultado de uma história que nenhum ser humano escreveu. Uma história composta por adaptações, relações ecológicas, transformações e incontáveis gerações. Quando ela desaparece, não perdemos apenas um exemplar de uma categoria chamada “biodiversidade”.

Perdemos uma história que jamais poderá ser escrita novamente. Talvez seja justamente essa dimensão que números e estatísticas, apesar de indispensáveis, nem sempre conseguem nos fazer sentir. A ciência pode mostrar a velocidade da perda da biodiversidade. Mas arte, música e literatura talvez possam nos ajudar a compreender o que significa perder.

Ancestralidade não é apenas olhar para trás

Chegamos então a uma inversão importante. Se ancestralidade fosse somente reverência ao passado, bastaria conservar memórias. Mas existe uma geração que ainda não pode contar suas histórias. Aquela que ainda não nasceu. Pensar ancestralidade significa também perguntar que mundo estamos preparando para essas pessoas.

Que florestas encontrarão?

Que espécies conhecerão?

Que rios poderão atravessar?

Que histórias, línguas e conhecimentos ainda estarão disponíveis?

Por isso, o capítulo propõe que reencontrar a ancestralidade como valor social não seja entendido apenas como exercício de memória, mas como uma urgência de futuro. Tradição e inovação não precisam ser forças opostas: podem participar de uma mesma busca por formas mais responsáveis de continuidade. A ancestralidade passa, assim, a conectar três tempos.

Aquilo que recebemos.

Aquilo que fazemos agora.

E aquilo que deixaremos.

Que nossas ações sejam sementes, não cinzas

Ao final do capítulo, uma frase sintetiza esse movimento:

“Que nossas ações sejam sementes e não cinzas.”

Talvez seja uma boa imagem para pensar nosso lugar neste momento da história. Não escolhemos o mundo que recebemos. Recebemos suas descobertas e suas feridas, suas florestas e suas cidades, suas histórias e seus apagamentos, seus conhecimentos e suas contradições.

Mas participamos das escolhas sobre aquilo que seguirá adiante. Ancestralidade, nesse sentido, deixa de significar apenas perguntar “de onde viemos?”

Passa também a exigir outra pergunta: “O que, a partir de nós, poderá continuar?”

Estradas somos.

Rios somos.

Florestas somos.

E talvez sejamos, sobretudo, um pequeno ponto de passagem entre aquilo que um dia foi memória e aquilo que ainda poderá se tornar futuro.