O que Sêneca, Frida Kahlo, Marsilio Ficino e os Tribalistas poderiam encontrar se, por algum acidente do tempo, acabassem todos no mesmo lugar? Talvez uma conversa sobre aquilo que faz uma vida valer a pena.
Há um vilarejo em algum lugar. O vento é bom, o horizonte parece finalmente ter encontrado onde repousar e as portas permanecem abertas. Há alimento nas mesas, flores pelos caminhos e tempo suficiente para que ninguém precise correr para chegar a lugar nenhum. É o pequeno mundo imaginado pelos Tribalistas em Vilarejo, canção lançada em 2002 e que, mais de duas décadas depois, continua oferecendo uma imagem sedutora de algo que parecemos procurar sem saber exatamente onde fica.
Não é difícil entender o encanto. Há alguma coisa naquele lugar que contraria silenciosamente boa parte da experiência contemporânea. Enquanto acumulamos compromissos, atravessamos cidades, respondemos mensagens e aprendemos a preencher qualquer intervalo de silêncio olhando para uma tela, a canção imagina um território no qual até o tempo parece disposto a esperar.
Sêneca provavelmente teria algumas observações a fazer.
Em Sobre a brevidade da vida, escrito muitos séculos antes de alguém precisar responder mensagens durante o almoço, o filósofo romano questionava justamente nossa relação com o tempo. Sua provocação continua desconfortavelmente reconhecível: não é apenas a duração da vida que importa, mas aquilo a que entregamos os nossos dias. Podemos desejar outra cidade, outro trabalho, outro momento ou circunstâncias finalmente favoráveis e descobrir, tarde demais, que passamos boa parte da existência esperando autorização para começar a viver.
Talvez, portanto, o tempo que espera em Vilarejo não precise ser entendido literalmente. Não existe um lugar no qual os relógios tenham decidido colaborar conosco. Existe, porém, uma pergunta sobre a maneira como habitamos o tempo que temos.
Um corpo que cria raízes
Frida Kahlo poderia complicar um pouco mais essa geografia imaginária.
Em Raízes, de 1943, a artista mexicana aparece deitada sobre uma paisagem árida. Do seu corpo brotam ramos que avançam sobre o solo e penetram a terra. A fronteira entre pessoa e paisagem começa a desaparecer. Não estamos diante de alguém que simplesmente contempla a natureza: o corpo participa dela.
A imagem permite olhar de outra maneira para o vilarejo da canção. Talvez a vida boa não dependa somente de encontrar um lugar melhor, mas de reconhecer os vínculos que tornam algum lugar significativo. Pertencer não é apenas ocupar um espaço. Envolve memória, relações, experiências e tudo aquilo que lentamente transforma território em parte de uma história.
Por isso, raízes são uma metáfora particularmente interessante. Elas falam de origem, mas não obrigam uma árvore a permanecer pequena. Ao contrário: é justamente a existência de raízes que permite crescer, produzir novos galhos e ocupar espaços que antes não existiam.
Há aqui uma diferença importante entre ancestralidade e nostalgia. O passado não precisa ser reproduzido para continuar presente. Ele pode ser elaborado, questionado e transformado. Carregar uma história não significa ficar preso a ela.
O vilarejo começa, então, a mudar de lugar. Já não está apenas depois de alguma curva da estrada. Uma parte dele está na relação que estabelecemos com o território que habitamos.
O problema de viver em pedaços
Mas ainda falta alguma coisa.
Podemos ter tempo e território e, mesmo assim, construir uma existência solitária. É nesse ponto que um florentino do século XV poderia aparecer nessa reunião improvável.
Marsilio Ficino dedicou seu Comentário sobre O Banquete de Platão, também conhecido como O Livro do Amor, a pensar o amor dentro da tradição neoplatônica. Reduzi-lo ao amor romântico seria perder justamente a dimensão mais interessante de sua reflexão. Em sua cosmologia, o amor participa do movimento que aproxima aquilo que está separado, estabelece relações e conduz a multiplicidade em direção à unidade.
É uma ideia nascida em um universo filosófico muito diferente do nosso e não precisa ser transplantada literalmente para o presente. Ainda assim, permanece uma provocação interessante em uma época na qual podemos estar permanentemente conectados e, ao mesmo tempo, experimentar formas bastante profundas de fragmentação.
Talvez seja isso que exista de mais radical no vilarejo dos Tribalistas. Não são as frutas nos quintais nem a primavera aparentemente permanente. É a ideia de que toda gente cabe lá.
Uma comunidade não existe porque muitas pessoas ocupam o mesmo espaço. Ela começa quando a existência do outro passa a fazer parte da maneira como construímos o mundo.
Nesse sentido, o amor de Ficino deixa de ser apenas sentimento e passa a sugerir relação. A terra de Frida deixa de ser cenário e torna-se pertencimento. E o tempo de Sêneca deixa de ser quantidade disponível para se transformar em experiência vivida.
De repente, aquelas referências tão distantes começam a conversar.
Talvez o vilarejo não seja um lugar
Há uma tendência compreensível de imaginar a felicidade geograficamente. Em algum momento encontraremos a cidade certa, a casa certa, o trabalho certo ou aquele pedaço de mundo no qual finalmente as coisas estarão em ordem. A publicidade conhece muito bem esse desejo. O turismo também. As redes sociais aperfeiçoaram a capacidade de nos mostrar diariamente pessoas que aparentemente chegaram antes de nós.
Vilarejo brinca com essa fantasia, mas talvez sua força esteja justamente em permitir outra leitura. O lugar descrito pela canção pode ser entendido menos como destino e mais como uma maneira de habitar o mundo. Sêneca acrescentaria o tempo. Frida acrescentaria a terra. Ficino acrescentaria os vínculos. Nenhum deles oferece um endereço, mas juntos permitem imaginar uma geografia curiosa da existência.
Uma vida boa talvez dependa da qualidade das relações que construímos com essas três dimensões: o tempo que recebemos, os lugares aos quais pertencemos e as pessoas com quem dividimos a experiência de estar aqui.
Isso não significa romantizar comunidades, territórios ou relações. Todo pertencimento também contém conflitos. Toda memória possui silêncios. Toda convivência exige negociação. O vilarejo perfeito provavelmente se tornaria bem menos perfeito assim que seus primeiros moradores precisassem decidir quem lavaria a louça depois da mesa comunitária.
Talvez seja melhor assim.
Utopias são interessantes não necessariamente porque possamos alcançá-las, mas porque tornam visível a distância entre o mundo que existe e aquele que consideramos possível. Elas nos permitem perguntar o que vale preservar, o que precisa mudar e que pequenas partes daquele horizonte já podem ser construídas no presente.
Ainda não encontramos o CEP do vilarejo. Mas talvez tenhamos procurado da maneira errada. Ele pode começar toda vez que recusamos entregar nossos dias ao que não importa, quando reconhecemos que não existimos separados dos lugares que sustentam nossa vida e quando construímos relações capazes de transformar proximidade em pertencimento.
Nesse caso, o vilarejo não estaria esperando por nós em algum ponto distante do mapa.
Estaria esperando para ser construído.
