Em 1920, Paul Klee desenhou um anjo. Walter Benjamin passou quase vinte anos olhando para ele até encontrar naquela figura uma das imagens mais inquietantes para pensar a história: um anjo que vê as ruínas do passado enquanto é empurrado, contra a própria vontade, em direção ao futuro.
Há alguma coisa estranha no Angelus Novus. O desenho de Paul Klee não corresponde à imagem grandiosa que normalmente associamos aos anjos. A figura tem os olhos arregalados, a boca aberta e as asas, se de fato as reconhecemos como asas, estendidas para os lados. Parece surpresa diante de alguma coisa que nós, do lado de cá da imagem, não conseguimos ver.
Walter Benjamin viu.
O filósofo alemão comprou a obra em 1921, apenas um ano depois de sua criação, e conservou-a durante grande parte da vida. O desenho tornou-se objeto recorrente de sua atenção e de seus escritos. Décadas depois, já durante a Segunda Guerra Mundial, aquela figura reapareceria em Sobre o conceito de história, texto escrito em 1940, ano da morte de Benjamin. Ali, na célebre Tese IX, o anjo de Klee deixa de ser apenas personagem de uma obra e se transforma no anjo da história.
A mudança parece pequena, mas altera completamente aquilo que estamos olhando.
O que o anjo vê
Nós costumamos organizar o passado como uma sucessão. Um acontecimento vem depois de outro, períodos históricos recebem nomes, datas estabelecem fronteiras e aquilo que aconteceu pode ser disposto sobre uma linha que avança da esquerda para a direita. Há algo reconfortante nessa organização. Mesmo as tragédias parecem adquirir um lugar determinado quando conseguimos dizer que aconteceram antes de nós.
O anjo imaginado por Benjamin não enxerga a história dessa maneira.
Seu rosto está voltado para o passado e, onde nós percebemos uma sequência de acontecimentos, ele encontra uma catástrofe que não termina de acontecer. Os destroços se acumulam diante dele. O anjo gostaria de permanecer ali, despertar os mortos e recompor aquilo que foi destruído, mas não consegue. Uma tempestade prende suas asas e o arrasta, de costas, para um futuro que ele não pode ver. Benjamin encerra a imagem identificando essa tempestade com aquilo que chamamos de progresso.
É difícil sair ileso dessa metáfora.
A ideia de progresso costuma carregar uma direção. Avançar significa deixar alguma coisa para trás, superar condições anteriores, produzir mais conhecimento, desenvolver tecnologias, aumentar nossa capacidade de transformar o mundo. O problema de Benjamin não está simplesmente em negar que mudanças ou conquistas aconteçam. Sua crítica se dirige à confiança em uma história que avançaria necessariamente para melhor, como se o movimento em direção ao futuro fosse suficiente para conferir sentido às perdas acumuladas no caminho. Sua filosofia da história confronta justamente essa concepção linear e automática do progresso.
O anjo introduz uma pergunta incômoda: o que acontece com aquilo que o progresso não consegue reparar?
Aquilo que ficou pelo caminho
A força da imagem talvez esteja em impedir que tratemos o passado como algo inteiramente encerrado.
Há acontecimentos que terminam e, ainda assim, continuam produzindo consequências. Uma floresta pode desaparecer em poucos meses, embora sua ausência atravesse gerações. Uma língua pode deixar de ser falada e levar consigo formas particulares de nomear plantas, lugares, relações e experiências. Uma comunidade pode perder parte de seu território e continuar reorganizando sua vida em torno daquela ruptura muito tempo depois. Conhecimentos podem desaparecer sem que tenham sido registrados, e memórias podem permanecer durante décadas mesmo quando quase todos os vestígios materiais daquilo que as produziu já desapareceram.
Nesse sentido, a ruína não é necessariamente uma construção abandonada. Também pode ser uma ausência.
Essa percepção modifica a maneira como pensamos memória. Lembrar deixa de significar apenas conservar uma narrativa sobre aquilo que aconteceu. A memória também permite reconhecer que determinadas experiências do passado continuam agindo sobre o presente.
É aqui que a imagem de Benjamin pode estabelecer uma conversa particularmente fértil com a ancestralidade. Não porque os dois conceitos sejam equivalentes — não são —, mas porque ambos dificultam uma separação confortável entre aquilo que passou e aquilo que somos.
Ancestralidade não significa simplesmente olhar para trás. As histórias que recebemos, os territórios aos quais pertencemos, os conhecimentos transmitidos entre gerações e também as rupturas, violências e silêncios herdados participam daquilo que pode continuar depois de nós. O passado, nesse sentido, não permanece imóvel. Ele reaparece, é disputado, reinterpretado e transformado no presente.
Talvez seja por isso que algumas ruínas sejam tão difíceis de reconhecer: continuamos vivendo dentro delas.
Quando a tempestade continua soprando
Quase um século depois de Klee desenhar seu anjo, há outra dimensão daquela imagem que se tornou difícil ignorar.
Nossa capacidade de transformar a Terra alcançou uma escala que torna particularmente ambígua a palavra progresso. Estradas aproximam lugares e atravessam ecossistemas. Tecnologias ampliam possibilidades humanas e exigem quantidades crescentes de energia e recursos. A produção de alimentos sustenta populações imensas enquanto determinados modelos produtivos simplificam paisagens e pressionam a biodiversidade. Aquilo que representa avanço sob determinado ponto de vista pode produzir perdas quando observado de outro.
A questão, portanto, não precisa ser formulada como uma escolha simples entre progresso e conservação. O problema começa quando uma única ideia de avanço se torna suficiente para tornar invisível tudo aquilo que foi sacrificado para produzi-lo.
É nesse ponto que o anjo volta a nos encarar.
Na imagem construída por Benjamin, ele não consegue interromper a tempestade. Também não consegue reparar sozinho aquilo que vê. Há algo profundamente desconfortável nessa impotência, sobretudo porque estamos acostumados a histórias nas quais a compreensão conduz à solução. O anjo não oferece esse consolo. Ele apenas mantém os olhos abertos.
Talvez essa seja uma das razões pelas quais a imagem permanece tão poderosa.
Ela nos obriga a desconfiar da ideia de que o futuro, simplesmente por chegar, corrigirá o passado. Não corrigirá. O tempo pode afastar acontecimentos sem reparar suas consequências. Uma nova tecnologia não recupera automaticamente uma espécie extinta. Crescimento econômico não recompõe por si mesmo um território degradado. O reconhecimento tardio de uma cultura não devolve necessariamente os conhecimentos que deixaram de ser transmitidos.
Seguir adiante não faz desaparecer aquilo que ficou para trás.
E talvez exista aí uma diferença fundamental entre caminhar em direção ao futuro e acreditar cegamente no progresso. Podemos continuar criando, pesquisando, transformando e imaginando outros mundos sem precisar fingir que toda mudança constitui, por definição, uma melhoria.
O desafio talvez esteja justamente em conseguir avançar sem repetir a posição do anjo: empurrados por uma força que não controlamos, olhando para os destroços quando já não podemos alcançá-los.
As ruínas diante de nós
Quando observamos hoje o Angelus Novus, sabemos que estamos diante de uma obra criada em 1920. Sabemos também que Benjamin escreveu suas teses em uma Europa atravessada pelo fascismo, pela guerra e pela perseguição. Esse contexto importa e não deve ser apagado para transformar sua filosofia em uma metáfora genérica sobre qualquer problema contemporâneo.
Mas grandes imagens intelectuais sobrevivem justamente porque continuam produzindo perguntas em circunstâncias que seus autores não poderiam conhecer.
Diante de uma floresta derrubada, de um território degradado, de conhecimentos que deixam de encontrar quem os transmita ou de comunidades que precisam lutar para permanecer onde construíram suas histórias, a pergunta do anjo ganha outra temporalidade.
Talvez nem todas as ruínas estejam atrás de nós.
Algumas estão sendo produzidas enquanto seguimos adiante.
E, nesse caso, olhar para trás não significa recusar o futuro. Pode ser justamente uma maneira de perguntar que futuro estamos construindo, e o que estamos aceitando deixar pelo caminho para chegar até ele.
Referências
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história, especialmente a Tese IX.
KLEE, Paul. Angelus Novus. 1920. Transferência a óleo e aquarela sobre papel, 31,8 × 24,2 cm. The Israel Museum, Jerusalém. Benjamin adquiriu a obra em 1921; posteriormente ela passou à coleção do museu.
