O que existe sob as raízes de uma cidade?
As gameleiras da Praça Tiradentes, o culto a Ìrókò e as histórias que Curitiba começa a reconhecer como parte de seu patrimônio cultural.
Quem atravessa a Praça Tiradentes, no centro de Curitiba, provavelmente já passou por elas. Talvez tenha procurado sua sombra em um dia quente, observado as raízes que se espalham pelo chão ou simplesmente seguido adiante, acompanhando o movimento de uma cidade que raramente parece disposta a esperar.
São cinco gameleiras. Árvores que participam da paisagem urbana há décadas e que, para muitas pessoas, talvez sejam apenas mais um elemento familiar da praça. Entretanto, sua presença guarda uma história que não pode ser compreendida somente pela botânica ou pelo paisagismo. Para comunidades de Umbanda e Candomblé, essas árvores constituem referências sagradas associadas a Ìrókò, o Orixá da grande árvore, relacionado ao tempo, à ancestralidade e à continuidade da vida.
Há algo particularmente interessante nessa convivência entre a cidade e as árvores. Enquanto ruas, edifícios e monumentos costumam receber placas que explicam sua importância histórica, outros lugares permanecem carregados de significados que nem sempre são reconhecidos pelas narrativas oficiais. A ausência de uma explicação visível, porém, não significa ausência de história.
Às vezes, significa apenas que ainda não aprendemos a escutá-la.
Ìrókò: o tempo que habita a árvore
Nas tradições religiosas afro-brasileiras, as árvores podem participar de relações que ultrapassam sua existência física. Elas integram espaços de culto, conhecimentos transmitidos entre gerações e formas particulares de compreender as relações entre a natureza, a espiritualidade e a vida comunitária.
Ìrókò ocupa um lugar significativo nesse universo. Associado à grande árvore e ao tempo, sua presença remete a uma compreensão da existência na qual passado, presente e continuidade não estão inteiramente separados. A árvore cresce, atravessa estações, transforma-se e permanece como referência para aqueles que chegam depois.
É importante, contudo, reconhecer que os significados e as práticas relacionados a Ìrókò não são necessariamente idênticos em todas as casas e tradições religiosas. O conhecimento ritual possui contextos próprios de transmissão, interpretação e pertencimento. Não cabe reduzi-lo a uma explicação única, muito menos transformar seus fundamentos sagrados em curiosidades destinadas ao consumo público.
Talvez seja justamente aí que comece uma maneira mais cuidadosa de olhar para as gameleiras da Praça Tiradentes: compreender que sua importância não depende apenas daquilo que um observador externo consegue identificar.
Uma árvore pode ser descrita por suas características biológicas, sua idade aproximada e sua contribuição ambiental. Mas essas informações, por mais relevantes que sejam, não esgotam os sentidos que uma comunidade constrói e preserva em relação a ela.
Há conhecimentos que não estão escritos nas placas da cidade, mas permanecem vivos nas pessoas que a habitam.
Quando a cidade reconhece aquilo que já tinha significado
Em outubro de 2024, o Conselho Municipal de Patrimônio Cultural de Curitiba reconheceu as cinco gameleiras da Praça Tiradentes como patrimônio cultural imaterial da cidade. Segundo o histórico que fundamenta o projeto Sob as Raízes de Ìrókò, trata-se do primeiro bem dos povos de terreiro registrado no Paraná.
O reconhecimento representa um marco importante, mas não foi o início dessa história.
Antes dele, houve anos de mobilização de comunidades de Umbanda e Candomblé, lideranças religiosas, pesquisadores e representantes do Fórum Paranaense de Religiões de Matriz Africana. Pessoas que trabalharam para que a presença das gameleiras e sua relação com as tradições afro-brasileiras fossem reconhecidas também no campo das políticas públicas de patrimônio cultural.
Entre as iniciativas que contribuíram para essa trajetória está o projeto Lugares de Axé, desenvolvido em 2014, que colaborou para o mapeamento de casas religiosas e para o fortalecimento do movimento de patrimonialização.
Essa cronologia revela uma distinção fundamental. O poder público não criou o significado cultural das árvores ao reconhecê-las. Esse significado já existia nas práticas, nas memórias e nos vínculos preservados pelas comunidades. O reconhecimento institucional representa outra etapa: a incorporação desse patrimônio ao conjunto de responsabilidades públicas de proteção e valorização cultural.
É também uma oportunidade para questionar quais histórias costumamos associar ao centro de Curitiba.
A cidade possui edifícios históricos, igrejas, monumentos e espaços que ajudam a contar sua formação. Entretanto, nenhuma narrativa urbana está completa quando deixa de reconhecer a presença e a contribuição das populações negras, de suas expressões religiosas e das formas pelas quais construíram vínculos com o território.
A Praça Tiradentes, nesse sentido, não é apenas um espaço de passagem. Ela participa de uma geografia cultural mais ampla, atravessada por manifestações como a Lavagem da Escadaria da Igreja do Rosário, a presença de blocos afro, maracatus e a Caminhada para os Orixás.
São acontecimentos que nos lembram que a memória de uma cidade não permanece somente em seus arquivos. Ela também se manifesta nos encontros, nas celebrações, nas práticas coletivas e nos lugares aos quais as pessoas atribuem significado.
Preservar uma árvore é preservar uma cultura?
A pergunta parece simples, mas sua resposta exige cuidado.
A proteção ambiental das gameleiras é indispensável. Sua integridade física, suas condições de desenvolvimento e sua permanência na paisagem urbana são aspectos importantes de qualquer iniciativa de preservação.
Entretanto, quando falamos de patrimônio cultural imaterial, preservar não significa apenas garantir que um elemento material continue existindo. Significa também reconhecer e favorecer a continuidade dos conhecimentos, das práticas e dos vínculos culturais associados a ele.
Uma árvore pode permanecer de pé enquanto determinadas histórias sobre ela deixam de ser transmitidas. Da mesma forma, uma tradição pode continuar viva mesmo diante de mudanças no território, sustentada pela memória e pela atuação das comunidades que a preservam.
Essas possibilidades mostram por que a salvaguarda de um patrimônio imaterial exige mais do que uma intervenção pontual. Ela envolve escuta, documentação, participação social e diálogo com aqueles que reconhecem e mantêm seus significados.
No caso das gameleiras da Praça Tiradentes, o próximo passo indicado no processo de reconhecimento patrimonial é a construção de um Plano de Salvaguarda. Trata-se de uma etapa que demanda conhecimento histórico e cultural, mas sobretudo a participação dos detentores dos saberes relacionados ao bem reconhecido.
Afinal, preservar uma cultura sem ouvir as pessoas que a vivem seria repetir, sob outra forma, os mecanismos de silenciamento que tantas vezes marcaram a construção das narrativas oficiais.
Sob as Raízes de Ìrókò: uma nova pesquisa
É nesse contexto que nasce Sob as Raízes de Ìrókò, projeto confirmado para iniciar suas atividades em 2027.
A proposta reunirá pesquisa histórica e documental, entrevistas, memórias orais, registros fotográficos, cartografia cultural e produção artística para investigar as relações entre as gameleiras, as comunidades religiosas e a memória afro-brasileira de Curitiba.
Um dos caminhos previstos é o uso do Mapa Falado, metodologia participativa que permite construir registros territoriais a partir das experiências e dos conhecimentos das próprias pessoas envolvidas. Mais do que localizar pontos em um mapa, a intenção é compreender como determinados lugares se tornam referências de pertencimento, memória e prática cultural.
A pesquisa também buscará documentar as relações entre as gameleiras e as casas religiosas vinculadas ao culto de Ìrókò, respeitando os limites de compartilhamento estabelecidos pelos participantes e pelas tradições envolvidas.
Os resultados serão organizados em uma publicação ilustrada de 96 páginas, com textos, entrevistas, fotografias, mapas e produções artísticas originais. Estão previstos mil exemplares impressos, distribuídos gratuitamente, além de uma versão digital acessível. O projeto também contempla um seminário público para compartilhar os resultados da investigação.
Mais do que produzir um livro sobre árvores, a proposta pretende contribuir para a circulação de narrativas que ajudam a compreender a presença afro-brasileira na cidade e oferecer subsídios documentais para futuras ações de salvaguarda.
E talvez exista algo especialmente significativo na escolha do livro como resultado desse percurso. Enquanto as árvores permanecem enraizadas em um lugar, suas histórias poderão circular por escolas, bibliotecas, universidades, espaços culturais e comunidades, alcançando pessoas que talvez nunca tenham observado aquelas gameleiras de perto.
O que aprendemos quando mudamos o olhar?
Costumamos pensar o patrimônio como aquilo que recebemos do passado e desejamos conservar para o futuro. Mas essa definição deixa uma pergunta importante: quem decide o que merece ser preservado?
Durante muito tempo, determinadas expressões culturais ocuparam posições privilegiadas nas narrativas sobre a formação das cidades, enquanto outras permaneceram pouco reconhecidas ou foram tratadas como manifestações periféricas. A ampliação do reconhecimento patrimonial não consiste apenas em acrescentar novos elementos a uma lista. Ela também exige reconsiderar os critérios pelos quais atribuímos valor às experiências humanas.
As gameleiras da Praça Tiradentes nos convidam a pensar justamente nessa direção.
Sua presença reúne dimensões ambientais, religiosas, históricas e culturais que não precisam ser reduzidas umas às outras. Reconhecer sua importância não significa exigir que todos compartilhem as mesmas crenças, mas compreender que uma cidade democrática também se constrói pelo respeito aos lugares e às práticas que possuem significado para diferentes comunidades.
Em 2027, começaremos a percorrer parte dessas histórias, ouvindo quem as conhece, reunindo registros e construindo uma publicação que permita compartilhá-las com um público mais amplo.
Até lá, talvez possamos começar com um gesto bastante simples.
Na próxima vez que atravessarmos a Praça Tiradentes, olhar para as gameleiras.
Não porque elas tenham passado a guardar histórias depois de seu reconhecimento como patrimônio cultural.
Mas porque essas histórias já estavam ali muito antes de aprendermos a percebê-las.
Sob as Raízes de Ìrókò é um projeto de pesquisa e publicação cultural previsto para 2027, com apoio da Fundação Cultural de Curitiba, dedicado às gameleiras da Praça Tiradentes e às memórias afro-brasileiras relacionadas ao culto de Ìrókò em Curitiba.
