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Caminhadas com os xamãs

Deixamos a casa de rezos para trás e iniciamos a primeira das cinco trilhas que faríamos nos dias seguintes.

— Não imaginei que todos os pajés da aldeia participariam da caminhada, Anacã — comentei.

— Tem o momento de ensinar e aprender. Tem que saber de alguma forma tudo isso pra poder seguir, pra entrar em contato com o mundo espiritual, pra poder saber das medicinas. Então, é um momento de aprender pra todos eles. — explicou Anacã.

— E quem entre vocês é biblioteca viva com os saberes sobre as plantas?

— Ah, é Pinuarana. E Remui também!

— E você Naru, com esse caderno na mão parece um pesquisador — comentei sorrindo.

— O pajé tem que ser pesquisador, tem que estudar a planta, saber pra que é, se é pra curar no banho, no chá, na esfregação — esclareceu Naru.

— E você se entrar na floresta e não achar a medicina que procura? — perguntei.

— Tem que voltar, fazer um rezo e começar de novo a caminhada até encontrar — respondeu Maxi, antes que Naru pudesse esboçar qualquer resposta.

— E também não e só chegar e pegar as folhas — explicou Teró — tem que conversar com a medicina, pedir a força dela, conversar com ela ali, pedir a força pra curar aquela doença. Se pegar sem pedir ela não vai servir, pode até ser remédio bom, mas não vai servir.

— Entendi! Por isso você anota tudo Naru — falei olhando diretamente para Naru, na esperança de que ele esclarecesse o fato de andar com o caderno.

— Tenho medo de esquecer. E tem que ir no remédio certo, se não vai tirar um monte de remédio da floresta e pode não servir — comentou Naru.

— A medicina é sagrada! E se tiver muita gente conversando os remédios bons vão se esconder, então tem que voltar, fazer um rezo e começar de novo a caminhada — falou Anacã e, em seguida, voltou-se para Pinuarana. Estavam a decidir em qual dos inúmeros caminhos se daria a caminhada do dia.

— Tem vários tipos de medicina na floresta para vários tipos de cura.  Mas as medicinas não são usadas o tempo todo. Elas somente são usadas na hora que a pessoa está precisando. Como agora vamos fazer com a medicina — disse Maxi, enquanto procurava algo em sua bolsa. Todos os pajés andam constantemente com suas inseparáveis bolsas. Carregam lá dentro os instrumentos de seu ofício. Ossos, penas, ervas entre outras coisas.

Quando nos limitamos a ser meros espectadores, corremos o risco de reduzir os saberes ancestrais a uma simples série de fatos ou histórias, sem realmente penetrar na profundidade de seu significado ou compreender seu valor intrínseco. É como tentar entender a vastidão do oceano apenas observando a superfície das águas: o verdadeiro tesouro está nas profundezas, onde as correntes contam histórias de tempos antigos e os seres marinhos dançam ao ritmo da vida.

A continuidade dos saberes ancestrais não se trata apenas de preservação; é uma questão de envolvimento e engajamento. É necessário que cada indivíduo da comunidade, e até mesmo aqueles de fora dela, estejam verdadeiramente comprometidos com a escuta ativa, a observação e a reflexão. Apenas com essa entrega completa, essa fusão entre o aprendiz e o conhecimento, é que se pode realmente perpetuar a essência dos saberes.

Além disso, os saberes ancestrais são a cola que mantém a coesão de um grupo. Eles são a base sobre a qual uma comunidade constrói sua identidade e sua visão de mundo. Esses saberes não são estáticos; evoluem e se adaptam com o tempo, mas sempre mantendo sua essência intacta. E para que essa evolução ocorra de forma harmônica e respeitosa, é preciso que haja um constante diálogo entre as gerações, uma troca onde a escuta, a interpretação e a palavra são igualmente valiosas e necessárias.